sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Um deus antigo

Quando ele aponta no calendário é um alvoroço. Mulheres de todas as cores e curvas o saúdam como um Deus antigo. Influenciadas por um poder maior que a nossa compreensão, elas ousam e exibem marcas na pele que tiram do prumo até mesmo o mais blasé dos olhares. Postura, corpo e sorriso ganham novas dimensões. Quadris requebram, decotes se pronunciam, ombros e coxas se revelam sem pudores, culpa ou timidez. Mas que entidade é essa que proporciona tão adorável e sensual transformação? Que coisa ou criatura seria capaz de provocar tanta devoção e entrega? Elas o chamam carinhosamente de VERÃO.

Agradecimentos: Bia, Mari, Renata e Sama.

Créditos (sentido horário): Leandro Mendes, Fábio Pinheiro, Andrey Lourenço e Bárbara de Melo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Encaixe

Se o tesão quisesse realmente seguir “padrões de beleza” andaria com uma fita métrica. Mas nós sabemos que ele jamais se submeteria a uma condição tão tola e descabida. Por isso, não se engane, aonde existir corpo, desejo, pressa e consentimento (nesse ponto há controvérsias) o tesão estará agindo. Abrindo botões, deixando marcas, eriçando pelos. Não lembro em que parte da festa eu a puxei para o banheiro. Também não lembro se o atrevimento me rendeu tapas e pontapés. A única imagem que permanece cristalizada na consciência são as paredes brancas e o vaso sanitário sustentando o nosso peso. Por várias vezes o trinco girou em desespero. Pedi desculpa às bexigas alheias e fiquei encaixado no quadril dela por vários minutos. Há tempos não tinha uma visão tão bonita. A menos de um palmo de distância um sorriso maior do que eu dizia: “Por favor, não pare. Não deixe ninguém sabotar a nossa loucura”.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sem olhar pra trás

“Quem me conhecer a partir de agora vai ter o melhor de mim”. A decisão foi tomada logo depois de mastigar o último pedaço de sanduíche natural. Desligou a luz da cozinha e foi lavar o rosto. Mas as mãos em concha não ofereciam a quantidade de água suficiente para lavar a sua nova postura. Despiu-se. Por longos minutos esqueceu as campanhas educativas e praticou o desperdício. Girou a válvula até o limite. Sob o chuveiro ficou a mercê de uma enxurrada. Imóvel. Talvez esperando o que ficou da pele antiga descer ralo abaixo. Tentou se lembrar de como era antes de morder o pão, mas não conseguiu reconstituir a sua própria imagem. Nem poderia. A mulher que escolheu ser, naquela tarde de domingo, já não estava mais subjugada a um passado de perdas recorrentes, de ciclos de covardia, de imobilidades periódicas. Estava enxuta, limpa, lúcida. Pronta para vestir uma roupa nova com estampas graúdas de recomeço.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Os Imcompreendidos

- Tava com muita saudade de você... Muita...

- Amor, você vai achar loucura se eu disser que deu vontade de comer bala soft vermelha?

- Você ouviu o que eu disse, Flávia?

- Eu também gostava muito daquela amarela...

- Tá brincando comigo, né?

- Será que ainda existe no mercado?

- Tudo bem, você venceu, Flávia. Eu vou pra casa.

- Amor, na volta você traz uma bala soft? Vermelha, viu?