domingo, 6 de maio de 2012

Sinais



Nasci com poucas habilidades e quase nenhum talento. Nos campeonatos de futebol da minha rua alcancei a glória de um vice-campeonato. E só. Não é à toa que tanta inaptidão resultasse em conquistas tardias. Pessoas assim aprendem desde cedo o significado do verbo “maturar”, andam pelo mundo com a turma da não expectativa. Mas como é possível sobreviver em um tempo de velocidades, baby? Quero confessar uma coisa. Só ontem é que eu finalmente aprendi a linguagem dos sinais. Aqueles dois, no seu ombro direito, conversaram comigo enquanto você dormia feliz, enquanto nossos amigos, do outro lado da porta, despencavam pertinho do mar, trôpegos de alegria.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Uma nova ordem

Ele não sabia, mas aquele pedaço de bolo, em cima da mesa, era dele. O suco de cajá, na porta da geladeira, também. Não tocou em nada até alguém dizer que podia. Aprendeu desde muito cedo a pedir permissão. A pergunta “eu posso?” vinha sempre antes da vontade, do desejo, da cobiça, nunca depois. A coragem para subverter a ordem natural das coisas só apareceu tardiamente, junto com alguns nacos de maturidade. Já era noite alta quando beijou sem consentimento a morena de sorriso hospitaleiro. Era o começo de uma carreira de pequenos e desajeitados atrevimentos.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A hora do cansaço


Foto: Michele Rodrigues

Cada pessoa tem um jeito próprio de lidar com a gota d´água. Assim como o elefante mais velho da manada pressente o fim da linha, eu também procurei um lugar pra descansar logo depois da nossa última conversa. Já não consigo mais acompanhar o teu ritmo. Enquanto você se afastava tentei catar na memória a primeira topada que causou o descompasso. Tolice. O pingo que fez transbordar o nosso copo estava o tempo todo de braços abertos, pedindo socorro, e só a gente não viu.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Revelações


Sempre tive a curiosidade de saber onde acaba o infinito. Descobri a resposta um dia desses. Não, eu não fiz cálculos matemáticos complexos, consultei búzios, cartas, oráculos, profetas ou sábios. Foi um lance de sorte ou obra do acaso, sei lá. Enquanto a banda fazia os ajustes finais pra começar o show eu aproveitei para ir ao bar. No caminho esbarrei com uma garota que saía da fila. Aproveitei a deixa e disse o quanto ela era atraente. Sim, eu já tinha bebido três bohemias. Covardes precisam de estímulos. Ela sorriu e olhou pra o chão, tentando escapar daquela situação embaraçosa. Foi nesse exato momento que o infinito foi revelado. Ele estava lá, sensualmente encaixado entre os seios e a clavícula, tatuado na morena mais bonita da festa.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Segunda pele

O sol já estava alto quando ela decidiu abandonar o habitual excesso de sofisticação. Diante do espelho teve a certeza que naquele corpo já não cabia “ares de Europa”. Era hora de assumir, de uma vez por todas, a sua brasilidade. Hora de se deixar levar pela natureza do lugar que escolheu viver. E assim, um a um, os antigos acessórios caíram por terra. Deixou para trás amarras, sisudez e sobriedade. Permitiu-se. Daquela manhã em diante coxas, seios, ombros, curvas e sorrisos saíram do anonimato. Era hora de se exibir, de causar estragos, de ser desejada. Escolheu o pub da moda para estrear a sua segunda pele. Foi devorada na beira do palco, entre os pedais e a mesa de som. Sob a benção do Led Zeppelin e os olhares de uma pequena multidão de voyers excitados.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sossega coração

Quando o ciúme entrou na minha vida eu já estava muito, muito velho. Não fiz escândalo, não esmurrei parede, não bati telefone, não mandei ninguém pra o inferno. Me tranquei no quarto e esperei o sono chegar. Ao tentar guardar os óculos derrubei acidentalmente o meu remédio do coração e a tampa do nebulizador. Logo cedo ouvi os cochichos pela casa: ele teve um acesso de fúria durante a madrugada. Ri sozinho na mesa e voltei a tomar o meu café da manhã. Tolos. Só eles ainda não perceberam que eu fiz as pazes com o tempo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Um deus antigo

Quando ele aponta no calendário é um alvoroço. Mulheres de todas as cores e curvas o saúdam como um Deus antigo. Influenciadas por um poder maior que a nossa compreensão, elas ousam e exibem marcas na pele que tiram do prumo até mesmo o mais blasé dos olhares. Postura, corpo e sorriso ganham novas dimensões. Quadris requebram, decotes se pronunciam, ombros e coxas se revelam sem pudores, culpa ou timidez. Mas que entidade é essa que proporciona tão adorável e sensual transformação? Que coisa ou criatura seria capaz de provocar tanta devoção e entrega? Elas o chamam carinhosamente de VERÃO.

Agradecimentos: Bia, Mari, Renata e Sama.

Créditos (sentido horário): Leandro Mendes, Fábio Pinheiro, Andrey Lourenço e Bárbara de Melo.