terça-feira, 1 de março de 2011

Hora de voltar


Foto: Mariza Rodrigues

Ela sabia de olhos fechados como abrir aquela fechadura. Uma habilidade irretocável mesmo sob efeito do álcool, da urgência de um tesão qualquer ou do breu apavorante. Mas dessa vez não foi fácil girar a chave da porta pela última vez. Essa era uma escolha que a rebobinaria para uma estranha intimidade, com paisagens familiares, caminhos conhecidos, antigos costumes e manias ancestrais. Trancou a poeira e os cômodos vazios com um nó na garganta. A lágrima caiu antes da primeira volta. Mais uma volta, mais lágrimas. Estava deixando para trás metros quadrados de teimosia, esperança, recompensas, tentativas, investimentos, erros e glórias. Quero acabar de viver o que me cabe, disse isso antes de largar o trinco, antes de sumir no estreito corredor, antes de descer as escadas, antes de bater o portão sem fazer alarde.

6 comentários:

Joana disse...

Ela estava bem decidida, viu? Tem muita calma nesse texto.

beijos

Anônimo disse...

não.. acho que ela devia estar cansada.. mastigada pelos metros quadrados de teimosia, esperança, recompensas, tentativas, investimentos, erros e glórias.

Karen disse...

Você me deixou deveras emocionada, amigo. (e você estava lá...?)

Ivone Poemas disse...

Tentar voltar a viver?! Quem sabe?!
A vida é tão curta que nem temos tempo de saber o que de fato é bom ou ruim, aí?! Aí temos de deparar com nossa solidão e tentar nos encontrar ou reencontrar mesmo que doa! E dói!!!
Lindo poema!!!
Ivone poemas
henristo.blogspot.com
hensto2009@hotmail.com

Jú Santiago disse...

Maravilhoso!! Esse Super Magro parecer ter visão de Raio X para os sentimentos alheios.
Massa também foi a pergunta: "E você estava lá?" rsrsrsrsrs

Bella disse...

Celo, você tem o dom de captar as coisinhas mais sutis que outro ser vivencia. Até a maturidade, a segurança... Você estava lá sim e com o coração batendo forte. Quem há de negar? A estranha para os íntimos abre o peito pra ti, numa comunicação que os deuses nem devem tentar entender, e você vê, e como vê. É a mágica sabedoria que ganham os olhos de amor e proteção.