sábado, 19 de fevereiro de 2011

O segredo dos seus olhos


Foto: Rafaele Diniz

Construímos nossa relação com pausas e monossílabos. Enquanto ela mastigava o copo plástico, sentada no chão, minhas sinapses tentavam articular um tema ou discussão minimamente envolvente, capaz de produzir no receptor (ela) o desejo de resposta. Nunca consegui dois períodos completos. E assim dois anos se passaram. Especializei-me em ouvir com atenção o que ela não tinha a me dizer. Mas se a boca não explodia em palavras, seus olhos (um castanho estranho que se transformava em cor de mel ao sol) mais pareciam um mural com letras graúdas, boas de soletrar. Da última vez que nos encontramos aconteceu o improvável. Por cinco gloriosos minutos ela falou sem parar, com vontade, empolgação e naturalidade. Olhos e boca numa sinergia de arrepiar. Eu, visivelmente bobo e feliz, tentava esticar mais e mais e mais a conversa. Mas não demorou muito para que seus fieis escudeiros a resgatassem para trás da muralha. Tarde demais. Dessa vez foi o ogro de óculos e pernas compridas que desceu a ladeira sorrindo.

4 comentários:

disse...

Lembrei de um texto que escrevi em 2008. O final é assim:"Quem cala, escreve. Quem escreve, não diz." (o não diz foi baseado em teorias psicanaliticas. rs)

Resumindo tudo: ow ogro maldito!!! =D

beijos

Janaína disse...

Cativante. Como sempre.

Jopz_B1B disse...

Kurti.

Débora Oliveira disse...

As pessoas que nos causam essas sensações costumam nos deixar destroçados.