sexta-feira, 19 de junho de 2009

Deixa eu passar com minha dor


A rua era um celeiro de personagens. Do alto de sua varanda ele assistia o vai e vem de malandros, trabalhadores, ladrões, pedintes, viciados, amigos, crianças, casais. E entre tantos rostos castigados pelo sol das 14h eis que surge um semblante não familiar. Montado em uma velha caloi um homem pedala lentamente, como se estivesse carregando um fardo muito maior que o seu peso. O rosto molhado de suor não foi capaz de esconder as lágrimas que escorriam num desatino de fazer dó. Enquanto a sua bicicleta ziguezagueava, desviando de carros e pedestres, a dor deixava rastros pelo caminho. Marcas de uma via crucis silenciosa, solitária e anônima. Naquela tarde de quinta-feira a angústia andou na contramão, atrapalhando o tráfego e comovendo o público.

8 comentários:

Priscila Adélia Pontes disse...

Eu adoro a realidade. Por mais crua e dura que seja ;)

Lucélia disse...

A mensagem no msn era pra Adélia, mas eu não resisti... hehehe

Eu fiz um trabalho recentemente [na verdade estou finalizando ele agora], onde eu estudei a localização das feiras livres de Natal. São 21 feiras. Na trajetória dele, eu convivi com tanta gente linda e 'sofrida'. Gente com esperança nos olhos. Gente que apesar da luta diária pela sobrevivencia estampavam um sorriso tão sincero no rosto que dava gosto. Após as entrevistas que eu fazia, notava o fardo peso que eles levavam nas costas. Pessoas que vivem no subemprego, que acordam cedo e dormem tarde, todos os dias há anos e anos... Mas apesar do fardo, eles aceitam a realidade. E são (ou naquele exatmo momento estavam) felizes de verdade.

... Podia passar o dia aqui falando deles [feirantes], mas preciso finalizar o trabalho. :P

Beijos, meu querido Panela. :)

Lucélia disse...

Infelizmente não conseguimos passar pr essa vida sem momentos de dor.

Niam disse...

Já dói quando somos apenas espectadores! Mas, há dias que vemos e noutros somos vistos - "C'est la vie!". Beijos!

Sara disse...

QUE BOM QUE APENAS PASSAM...
ÓTIMO TEXTO, PANELOVISK!

Cleo Lima disse...

isso aí é senso de observação.

excelente, filhote.

cris disse...

Bela crônica!

marco navarro disse...

é, meu véio, eu que até então só havia rido (e muito) com seus textos, experimentei um pouco de nó na garganta com este.
lindo e doído.
M.