
Foto: Mariza Rodrigues
Ela sabia de olhos fechados como abrir aquela fechadura. Uma habilidade irretocável mesmo sob efeito do álcool, da urgência de um tesão qualquer ou do breu apavorante. Mas dessa vez não foi fácil girar a chave da porta pela última vez. Essa era uma escolha que a rebobinaria para uma estranha intimidade, com paisagens familiares, caminhos conhecidos, antigos costumes e manias ancestrais. Trancou a poeira e os cômodos vazios com um nó na garganta. A lágrima caiu antes da primeira volta. Mais uma volta, mais lágrimas. Estava deixando para trás metros quadrados de teimosia, esperança, recompensas, tentativas, investimentos, erros e glórias. Quero acabar de viver o que me cabe, disse isso antes de largar o trinco, antes de sumir no estreito corredor, antes de descer as escadas, antes de bater o portão sem fazer alarde.