
Marcaram na cafeteria às 19h. Ele não gostava tanto de café, mas não seria tolo para recusar o convite. Ela, por sua vez, viajava no aroma dos grãos. Parecia levitar entre os cafezais sem tirar os pés do granito.
- Você não vai pedir o seu?
- Não. Eu não sou muito fã...
- Pois eu adoro café a qualquer hora!
- Eu posso só ficar olhando pra você?
Ela riu e continuou a mexer o café com a precisão de quem abre um cofre antigo. Sete voltas no sentido horário, com diminuição de velocidade a partir do quinto círculo. Nem mais, nem menos. O rapaz não via aquilo com espanto ou curiosidade, mas como um jeito divertido de conhecer suas manias.
Ninguém sabe definir a partir de que ponto as retinas se alinharam. Ele disse que foi logo depois que os cubos de açúcar derreteram, ela bateu o pé e afirmou que tudo aconteceu depois do segundo gole. Para a garçonete, que viu e ouviu a gostosa discussão, o estopim foi o toque involuntário das mãos na troca do cardápio. Os dois concordaram. A noite continuou com goles, pausas, sopros e sorrisos. Despediram-se com promessas de um amanhã. Cada um levando para casa o sabor do café na ponta da língua.