terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Revelações


Sempre tive a curiosidade de saber onde acaba o infinito. Descobri a resposta um dia desses. Não, eu não fiz cálculos matemáticos complexos, consultei búzios, cartas, oráculos, profetas ou sábios. Foi um lance de sorte ou obra do acaso, sei lá. Enquanto a banda fazia os ajustes finais pra começar o show eu aproveitei para ir ao bar. No caminho esbarrei com uma garota que saía da fila. Aproveitei a deixa e disse o quanto ela era atraente. Sim, eu já tinha bebido três bohemias. Covardes precisam de estímulos. Ela sorriu e olhou pra o chão, tentando escapar daquela situação embaraçosa. Foi nesse exato momento que o infinito foi revelado. Ele estava lá, sensualmente encaixado entre os seios e a clavícula, tatuado na morena mais bonita da festa.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Segunda pele

O sol já estava alto quando ela decidiu abandonar o habitual excesso de sofisticação. Diante do espelho teve a certeza que naquele corpo já não cabia “ares de Europa”. Era hora de assumir, de uma vez por todas, a sua brasilidade. Hora de se deixar levar pela natureza do lugar que escolheu viver. E assim, um a um, os antigos acessórios caíram por terra. Deixou para trás amarras, sisudez e sobriedade. Permitiu-se. Daquela manhã em diante coxas, seios, ombros, curvas e sorrisos saíram do anonimato. Era hora de se exibir, de causar estragos, de ser desejada. Escolheu o pub da moda para estrear a sua segunda pele. Foi devorada na beira do palco, entre os pedais e a mesa de som. Sob a benção do Led Zeppelin e os olhares de uma pequena multidão de voyers excitados.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sossega coração

Quando o ciúme entrou na minha vida eu já estava muito, muito velho. Não fiz escândalo, não esmurrei parede, não bati telefone, não mandei ninguém pra o inferno. Me tranquei no quarto e esperei o sono chegar. Ao tentar guardar os óculos derrubei acidentalmente o meu remédio do coração e a tampa do nebulizador. Logo cedo ouvi os cochichos pela casa: ele teve um acesso de fúria durante a madrugada. Ri sozinho na mesa e voltei a tomar o meu café da manhã. Tolos. Só eles ainda não perceberam que eu fiz as pazes com o tempo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Um deus antigo

Quando ele aponta no calendário é um alvoroço. Mulheres de todas as cores e curvas o saúdam como um Deus antigo. Influenciadas por um poder maior que a nossa compreensão, elas ousam e exibem marcas na pele que tiram do prumo até mesmo o mais blasé dos olhares. Postura, corpo e sorriso ganham novas dimensões. Quadris requebram, decotes se pronunciam, ombros e coxas se revelam sem pudores, culpa ou timidez. Mas que entidade é essa que proporciona tão adorável e sensual transformação? Que coisa ou criatura seria capaz de provocar tanta devoção e entrega? Elas o chamam carinhosamente de VERÃO.

Agradecimentos: Bia, Mari, Renata e Sama.

Créditos (sentido horário): Leandro Mendes, Fábio Pinheiro, Andrey Lourenço e Bárbara de Melo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Encaixe

Se o tesão quisesse realmente seguir “padrões de beleza” andaria com uma fita métrica. Mas nós sabemos que ele jamais se submeteria a uma condição tão tola e descabida. Por isso, não se engane, aonde existir corpo, desejo, pressa e consentimento (nesse ponto há controvérsias) o tesão estará agindo. Abrindo botões, deixando marcas, eriçando pelos. Não lembro em que parte da festa eu a puxei para o banheiro. Também não lembro se o atrevimento me rendeu tapas e pontapés. A única imagem que permanece cristalizada na consciência são as paredes brancas e o vaso sanitário sustentando o nosso peso. Por várias vezes o trinco girou em desespero. Pedi desculpa às bexigas alheias e fiquei encaixado no quadril dela por vários minutos. Há tempos não tinha uma visão tão bonita. A menos de um palmo de distância um sorriso maior do que eu dizia: “Por favor, não pare. Não deixe ninguém sabotar a nossa loucura”.