Eles já conseguem ultrapassar com desenvoltura os monossílabos mutiladores. Nem sempre foi assim. Ironicamente a fartura de verbos e complementos começou na maré baixa, próximo aos recifes. O vinho aberto, o breu, a maresia, o sal, o mundo a rodar e ela procurando um atalho seguro para sair da juventude. O tempo chegou para os dois. A menina ganhou páginas de conhecimento, o rapaz um jeito de disfarçar a idade. Foram vistos conversando no ônibus que liga o centro a zona sul. Ela nem percebeu, mas o que ele mais queria naquele pedaço de tarde era transformar dois dedos de prosa em uma mão espalmada, grande, inteira.
domingo, 2 de outubro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Frente e verso
Eu não tive um sonho revelador, não ouvi vozes e nem tampouco presenciei um clarão no céu. O sinal veio diretamente das mãos dela, sem intermediário. Era uma carta (com frente e verso!). Pediu que eu abrisse só depois de sua saída. Obedeci. Esperei ela abrir a porta pra só então rasgar com cuidado o envelope. O perfume salpicado na folha foi uma estratégia bem elaborada. Mas o que estava em minhas mãos iria me tirar do prumo como um velho trem descarrilado. Comecei a ler em pé, encostado no balcão, mas depois de alguns segundos os joelhos dobraram com o peso dos parágrafos. Fui obrigado a sentar, caso contrário, nunca chegaria ao ponto final. Pedi uma dose de volúpia. Depois mais outra. Em seguida, uma terceira. O garçom não se conteve e puxou conversa:
- Dia difícil?
- Não, não
- Mas tanta sede, em tão pouco tempo, deve ter uma razão...
- É que eu acabei de descobrir o amor em letras graúdas. Sabe, meu velho, isso assusta. Principalmente para quem passou a vida inteira sozinho, à sombra dos outros, amaldiçoado pelo manto negro da invisibilidade.
sábado, 17 de setembro de 2011
Escancarados

domingo, 11 de setembro de 2011
O expectorante

Eu não sei em que parte da jornada a ficha cai e finalmente temos a certeza de que encontramos alguém especial. Nas minhas andanças vi muitas fichas que jamais tocaram o chão. Mas na semana passada uma delas completou a sua trajetória. Ninguém saberá se aquele foi o seu primeiro voo. Acho que não. Pela devoção de suas palavras o amor já estava no peito daquele rapaz há algum tempo. Só não tinha coragem de dizer publicamente que estava apaixonado, de escrever nas redes sociais o quanto aquela mulher mudou a sua rotina de uma forma irreversível. Ele nem se deu conta, mas a cerveja começou a funcionar como um velho e eficiente expectorante. E entre um gole e outro confessou que era o homem mais feliz do mundo. Por trás da baía o sol encerrava o seu expediente. Pediu mais uma garrafa ao garçom. Era sábado. Dia de sorrisos imensuráveis.
sábado, 10 de setembro de 2011
Acima de tudo

Foto Deviantart
Cresceu acreditando que não possuía talento algum. A única coisa da qual se orgulhava era a capacidade de subir na goiabeira de olhos fechados. Parecia um calango cego deslizando entre as folhagens. E foi lá, no último galho, que o grito chegou ao chão.
- Mãe, por que eu tenho que levantar da cama todas as manhãs?
- Para fazer as pessoas sorrirem, respondeu sem largar o sabão e a toalha encardida.
- Mas eu não sou palhaço, mãe! Eu odeio palhaço! Odeio!
- Tá certo. Você é o trapezista da goiabeira.
Ele ria. Sentia-se maior. Era alguém na vida. Finalmente.
domingo, 7 de agosto de 2011
Confissões
Um dia nossa história não vai passar de uma empoeirada lembrança. Mas quando essa hora chegar eu quero estar lúcido para lembrar de como tudo começou. E dizer: filho, aquela mulher na bilheteria do cinema foi minha primeira grande paixão. Ele vai comentar sobre a sua beleza e me questionar sobre o que deu errado. Falaremos de escolhas e de como a vida tem um jeito próprio de carregar as pessoas de um lado para o outro. Concordaremos em vários pontos, sobretudo no meu pedido de manter aquela conversa em segredo. Um sorriso sacramentará o acordo. E o doce da coca mais sabor ao nosso fim de tarde.