Não é de hoje que o tesão nos espreita. Sempre se esgueirando por entre coxas, pescoços, mãos, ombros, costas, quadris. Um dia ele vai cansar dessa brincadeira, desse jogo de esconde-esconde, de correr sobre a pele, de se enroscar nos pelos. Um dia, completamente exausto e com sede, o tesão vai pedir um copo com água, mas eu darei saliva. Essa conversa eu tive com os meus botões. Os mesmos botões que horas mais tarde avançaram famintos sobre o decote avassalador, que apertaram os seios macios e perfumados contra o meu peito. Os mesmos botões que voltaram pra casa cheirando a damasco, âmbar, vetiver e jasmim. O cheiro dela.quarta-feira, 8 de junho de 2011
Saliva e jasmim
Não é de hoje que o tesão nos espreita. Sempre se esgueirando por entre coxas, pescoços, mãos, ombros, costas, quadris. Um dia ele vai cansar dessa brincadeira, desse jogo de esconde-esconde, de correr sobre a pele, de se enroscar nos pelos. Um dia, completamente exausto e com sede, o tesão vai pedir um copo com água, mas eu darei saliva. Essa conversa eu tive com os meus botões. Os mesmos botões que horas mais tarde avançaram famintos sobre o decote avassalador, que apertaram os seios macios e perfumados contra o meu peito. Os mesmos botões que voltaram pra casa cheirando a damasco, âmbar, vetiver e jasmim. O cheiro dela.segunda-feira, 16 de maio de 2011
Amor de balcão
Já cheguei ao pub mal intencionado. Estava numa secura de fazer dó. A primeira loira que apareceu na minha frente com cara de devassa eu peguei. A negociação foi rápida. Paguei a vista. Enquadrei ali mesmo, no pé do balcão. Um, dois, três goles sem parar. A danada era muito gostosa. O casal de adolescentes que estava ao lado fez uma cara de desaprovação (talvez por conta da minha avidez). Eu respondi na hora: tá vendo essa loira que eu tô agarrando? Eu paguei por ela! Atrás de mim o salão pegava fogo. Era o rock and roll abençoando nossa relação.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Velha guarda
domingo, 24 de abril de 2011
Formato Mínimo
Nunca soube demonstrar interesse. Não era por maldade, frigidez ou charminho. Era o jeito dela. E ponto. Os amigos cobravam mais efusividade, os amantes exigiam frases de entrega e devoção e a família pedia doses extras de afagos públicos e explícitos. Mas apesar de tantos apelos ela continuava a amar discretamente, querer sem histeria, cobiçar sem ganância, paquerar sem alarde, se entregar sem exageros. Na realidade, ninguém sabia o quanto aquela mulher queimava por dentro (a não ser o seu gastroenterologista que descobriu semana passada a causa do maldito refluxo incendiário). Sexta-feira, num impulso sentimental, eu expulsei o que estava guardado no peito há meses: eu gosto muito de você! A resposta chegou como um tiro: ok! E antes que eu reclamasse da economia das palavras ela completou sorrindo: Não se assuste, moço. O amor nem sempre é enxurrada.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Procurando um título...
Foto Deviantart
Quando você (finalmente) descobrir o significado do verbo surpreender, por favor, me procure. O cachorro está preso e o portão sem cadeado.
Clicou no botão enviar e fez a única coisa que estava ao seu alcance: cruzou os dedos (numa tentativa fajuta de atrair a sorte). A resposta não veio, o ferrolho não fez barulho e nenhum latido anunciou a chegada de uma nova visita. Depois de muita espera fez o que todo mundo faz com as ausências. Resignou-se. O que ele não sabe é que o querer, além de não dormir, tem um apetite voraz e um passatempo curioso (quase sádico). Costura em silêncio corações baqueados, só para vê-los perder a estribeira novamente.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
A maldição da beleza
Dia desses estava pensando no fardo que as mulheres lindas, inteligentes, solteiras e bem sucedidas são obrigadas a carregar. Na quantidade de homens interessantes (o interessante em questão vai muito, muito além da estética) que elas deixam de conhecer justamente por possuírem tais atributos. Eu não sei se existe pesquisa científica, mas é comum você ler e ouvir que parte da classe masculina se sente intimidada e até assustada na hora de se aproximar, de começar uma conversa, de arriscar um diálogo. Ou seja, se elas não tomarem a iniciativa tudo acaba em zero a zero. Eu faço minha parte. Tento assustá-las primeiro. Sim, meus amigos, até a feiúra tem um propósito de ser.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Lado a lado
Domingo não é o meu dia preferido. Ele não carrega a excitação das sextas, tampouco os desatinos dos sábados. Vive bocejando pelos cantos, com uma puta ressaca e preguiça de viver. É um dia sem tesão. Era. Até aquela mensagem chegar e tirar o prumo das minhas certezas.
Talvez eu não seja uma boa companhia, mas, ainda assim, eu preciso sair hoje...
Fiquei na dúvida se aquele texto era um desabafo, um convite, um desafio ou um passo para uma armadilha. Paguei pra ver. Decidimos por um bar longe dos holofotes. Sentamos perto do palco, pés na grama, coração leve, blues e bossa a nosso favor. Em quase três anos de convívio nunca estivemos tão perto um do outro (seja verbal ou fisicamente). Tentei dizer isso, mas Menescal e Bôscoli chegaram matando. Esperei ela terminar a última estrofe de “Ah, Se eu pudesse” e refiz a pergunta: o que você vai fazer no próximo domingo? Ela riu, pediu um gole da minha cerveja e respondeu: um passo de cada vez, meu querido, um passo de cada vez....
terça-feira, 5 de abril de 2011
Urgências
Ele a puxava para um lado, por tesão, e eu para o outro, por saudade. Ela, de braços abertos, olhava pra mim esperando que eu entendesse a urgência da sua partida. Sob a tenda, uma disputa silenciosa. Em jogo, mais atenção e carinho. O abraço rápido, sem calor e burocrático selou a minha derrota, que já era anunciada antes mesmo do cabo de guerra começar. Na realidade, o primeiro indício de que eu a perderia na multidão foi revelado entre o primeiro e o terceiro bater de pálpebras. Foi nessa fração de segundos que eu li o recado em seus olhos negros: “Desculpa, Celo. Agora não. Vou ali ser feliz e não volto”. Ironicamente o DuSouto começou a cantar “aonde está meu outro par da sandália havaiana”. Comprei mais uma cerveja quente e empurrei goela abaixo o maldito nó atravessado na garganta. quinta-feira, 10 de março de 2011
Um passo a frente
Foto Deviantart
Cansado de andar em círculos
De ver meio mundo passar por mim
Dos olhares piedosos
Das esmolas de carinho
Não quero nada disso
Eu só preciso de uma pá e um pacote de cal
A cova eu mesmo abro
Quero enterrar o passado, tudo que me atrasa, me engana, me segura e me retém
o mais fundo possível, de preferência, já bem próximo a porta do inferno.
terça-feira, 1 de março de 2011
Hora de voltar

Foto: Mariza Rodrigues
Ela sabia de olhos fechados como abrir aquela fechadura. Uma habilidade irretocável mesmo sob efeito do álcool, da urgência de um tesão qualquer ou do breu apavorante. Mas dessa vez não foi fácil girar a chave da porta pela última vez. Essa era uma escolha que a rebobinaria para uma estranha intimidade, com paisagens familiares, caminhos conhecidos, antigos costumes e manias ancestrais. Trancou a poeira e os cômodos vazios com um nó na garganta. A lágrima caiu antes da primeira volta. Mais uma volta, mais lágrimas. Estava deixando para trás metros quadrados de teimosia, esperança, recompensas, tentativas, investimentos, erros e glórias. Quero acabar de viver o que me cabe, disse isso antes de largar o trinco, antes de sumir no estreito corredor, antes de descer as escadas, antes de bater o portão sem fazer alarde.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
O segredo dos seus olhos

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Nocaute
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Diário de Bordo

Foto: Uliana Fechine
Foi preciso alguém gritar “solta as amarras!” para ela finalmente entender que era hora de levantar âncora e explorar novos portos. Começou pelos inseguros. Afinal, de previsibilidade já bastava aquela rotina massacrante, o percurso para o trabalho, a sequência de exercícios na academia e o alface na salada. Por que se contentar com a ilhota ao lado se a embarcação tinha autonomia para chegar ao continente? Aqui do farol eu vejo suas manobras. Algumas cheias de ousadia, graça e sensibilidade, outras na base da força e perseverança. Não vou questionar o poeta, eu sei que navegar é preciso. Mas tão importante quanto isso é manter o leme firme e possuir um coração disposto a cometer (sempre que necessário) desatinos em nome de uma boa aventura.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
A negociação
Diariamente o nosso olhar esbarra em retinas alheias. O perigo (ou seria sorte?) é quando ele cristaliza, quando entrega de bandeja nossas intenções a um estranho. Lembro bem quando ela chegou (acompanhada de mais três amigas) e pediu uma cerveja ao dono da birosca. A última garrafa estava na minha mão. Uma Nova Schin, quente e cobiçada. A negociação foi tensa, olho no olho, gota a gota. Eu, irredutível, ela, determinada. Talvez a Ribeira nunca tenha testemunhado um duelo por tão baixo valor (e teor). Mas nós dois sabíamos que dinheiro não era problema naquela madrugada. Só queríamos beber para expulsar os demônios. A espuma no copo selou o impasse. Deixou para trás um nome, um sobrenome e um muito obrigado. Confiei nela, na minha memória e nas ferramentas de busca. O rastro digital me levou a uma janela branca, com moldura azul. É de lá que eu recebo notícias e espero pacientemente por um novo encontro livre de barganhas.quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
A voluptuosa de Lagoa Seca
Grande ela não era. Nem precisava. Aquele corpo compacto já causava um transtorno considerável à vizinhança. Quem mais sofria era dona Isabel. A viúva tinha investido uma grana preta na reforma do imóvel. O problema é que a obra andava a passos de tartaruga. O motivo de tanta lerdeza só veio à tona quando ela casualmente cruzou com a morena da motoca. Foi aí que descobriu a causa da colossal improdutividade. Se para a ingênua senhora a ficha caiu naquele início de tarde, para os funcionários da construção o "ócio contemplativo" era uma atividade corriqueira e prazerosa.
O ronco do escapamento era o sinal para que serventes e pedreiros largassem as ferramentas e corressem para os seus postos de observação. Sobre a laje inacabada eles acompanhavam com olhos de lince cada movimento da moça. Da retirada do capacete até a entrada no escritório. E, cá entre nós, desviar o olhar daquelas coxas torneadas e do decote banhado de suor seria um ato de indelicadeza. Ela ria. Um sorriso gostoso de quem é cúmplice de um assassinato sem vítimas ou culpados.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Acesa

Foto: Deviantart
Cada ser humano é uma fonte de eletricidade. E nessas minhas andanças pela madrugada sempre reservo um tempo para observar essa energia invisível em ação. Assim como há bem-humorados e ranzinzas, há também quem ilumine corações ou produza energia suficiente apenas para manter um bico de luz em funcionamento. Naquela noite ela estava diferente. Tinha fome de vida e uma capacidade surpreendente de criar campos magnéticos.
domingo, 21 de novembro de 2010
Com trigo e com afeto

Foto Deviantart
Gosto da figura do anti-herói porque dele se espera tudo, menos a vitória. E quando finalmente ele triunfa (seja salvando o mundo de um ataque alienígena ou ganhando um elogio da mocinha da história) passa a andar com um sorriso perpétuo pela cidade. Eu me senti mais ou menos assim quando ela ligou pra o meu celular: e a nossa Bohemia? Pode ser hoje à noite? Talvez para os “fodões” (prometo escrever sobre eles outra hora) seja corriqueiro dividir a mesa com mulheres belíssimas, mas eu acordo sem estratégias e planos de conquistas. Simplesmente acordo.
E foi assim, sem pretensões, que eu bebi a minha primeira cerveja de trigo com a mulher mais linda do casamento. Nada de textos ensaiados ou frases feitas. Estávamos desarmados e a favor da correnteza. O temor das pausas constrangedoras deu lugar a uma espontaneidade quase absurda. Enquanto ela falava de suas peripécias lembrei da primeira vez que escrevi a palavra “saudade” na janela branca. Não sabia se era hora para dizer aquilo, mas em 12 segundos chegou a resposta: eu também! E o nosso encontro, que há um ano parecia algo completamente improvável, terminou com sorrisos de até sempre.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Pé na tábua!

Fotos Deviantart
Vem comigo, eu tenho um plano. Disse a frase sem pensar nas consequências. O timbre foi suficiente para a garota enxergar nas 23 letras a tão esperada chance de um novo recomeço. E ela não titubeou: amor, tenho um coração maior do que eu para doar. Tinha mesmo. Apesar da estatura mediana a gente ouvia de longe o pulsar no lado esquerdo do peito. Mas quem estava no posto de gasolina garantiu que o motorista do fusca amarelo partiu em disparada. Sozinho. Deixando para trás um rastro de poeira, falsas promessas e um sombra vagando em silêncio.
domingo, 31 de outubro de 2010
Na trave

quarta-feira, 20 de outubro de 2010
A dama do lotação

terça-feira, 12 de outubro de 2010
Fora de moda

Foto Deviantart
Você se veste muito mal. A frase foi à queima roupa. Fulminante como um tiro de calibre 12. Sobrevivi, mas os estilhaços me forçaram a interpretar com mais clareza os sinais que vinham do espelho. Na manhã seguinte tirei a barba e cortei o cabelo. Escolhi a camisa menos pálida, troquei a velha bermuda por uma calça e limpei meu único tênis. Não sei ao aonde quero chegar com isso. Impressioná-la? Não carrego a falsa esperança de ficar atraente. O que eu tenho de mais valioso é um patrimônio imaterial de valores não estéticos. Mas parece que hoje em dia isso é um acessório completamente fora de moda.
sábado, 2 de outubro de 2010
Canção para viver mais

Já estava com o pé no primeiro degrau do ônibus, mas decidiu voltar. Tirou da sacola o LP preferido e disse (voz de quem acredita no futuro): para você ouvir quando a saudade for maior que a soma dos nossos interurbanos. A música nunca mais parou de tocar. E a vida dos vizinhos ganhou um novo ritmo.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Um novo perfume
Eram incapazes de identificar notas de jasmim, canela, sândalo ou gardênia, mas mesmo assim insistiam em descobrir a fragrância da ruiva sentada na cadeira ao lado.
- Isso é perfume francês, mané!
- Boy, pode ser até sabão de coco. Não faz diferença. Ela é gostosa de todo jeito.
Enquanto a inútil discussão rolava na mesa a garçonete enchia as tulipas. Retirou a garrafa vazia e voltou para o balcão. Ficou a esperar o aceno de um novo cliente, o pedido da madame, a exigência de um boçal qualquer. Na mão direita, lápis e papel, no pensamento, um desejo quase insano de sobrevivência: tirar da pele o maldito cheiro de roupa guardada.
domingo, 12 de setembro de 2010
Eu e mais ninguém

Velha amiga, hoje a madrugada está mais silenciosa. Estranhamente Shazam não perseguiu o gato preto. A moça do crack ainda não passou com o seu vasto repertório de palavrões e o meu vizinho insone adormeceu sem derrubar nenhum prato. Estou me sentindo um bocado só (apesar do Orkut atestar categoricamente que eu tenho quase 400 amigos). Queria te contar sobre a maldição de ser transparente e o peso que é carregar esse vazio nas costas por tanto tempo. Aprendi a curar minha ressaca com chá de boldo. Mas nunca me explicaram o que fazer com a solidão. Esse é o tipo de hemorragia que não estanca com band-aid.
domingo, 29 de agosto de 2010
De grão em grão

Nunca acreditei na felicidade como um pacote. Normalmente ela vem em pequenos pedaços, fios, nacos, lascas. Por isso aprendi desde cedo a “lamber os beiços” com porções econômicas. Vamos encher o nosso pote, baby. Mas sem correria, desatino e estardalhaço. De grão em grão. Ao fim da semana teremos um banquete. E então, longe dos franco-atiradores, dormiremos em paz, saciados de corpo, gozo e alma.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Cicatrizes
Você seria capaz de produzir uma crônica que tivesse como tema uma cicatriz do seu corpo? Esse questionamento inútil veio a tona nesses últimos 12 dias que fiquei trancado em casa, me recuperando de uma pequena cirurgia. Sabe como é... Mente vazia é oficina do diabo. A ideia é simples. Convidaria um número “x” de amigos e cada um deles escreveria sobre uma cicatriz do corpo. Reconheço que a tarefa, em alguns casos, poderia ser dolorosa. Afinal, corre-se o risco de se reviver lembranças não muito agradáveis. Mas acho que, ainda assim, o resultado seria instigante. Teríamos um apanhado de histórias de vários gêneros, do drama a comédia.
Eu tenho uma cicatriz na testa que entraria facilmente na segunda categoria. Consegui a marca batendo de frente em um poste. Detalhe: eu estava caminhando. Como eu consegui essa proeza? Isso você só vai descobrir quando comprar o livro “Cicatrizes”. Na realidade, o projeto só existe na minha cabeça. Portanto, ainda dá tempo de você vasculhar a sua pele em busca de algum vestígio que valha uma boa história. Aliás, vale tudo. Marca de bala, faca, vidro, prego, gilete, mordida, estilhaço, galho de árvore, queimadura... Mas, pelo amor de Deus, não force a barra só pra conseguir um espaço no livro. Lembre-se: automutilação é fim de carreira.
sábado, 14 de agosto de 2010
Me diz que eu sou seu tipo

Tenho amigos que deliram com motores e cifras. Minhas ambições sempre foram mais acanhadas. Mas ontem saí de casa com um propósito: quebrar a banca. Apostei alto. Empenhei todo o meu reino (com dragão e tudo). Queria a morena na ponta dos pés, estrangulando meu pescoço, esmagando vértebras, rasgando a minha carne com os caninos do desejo. Naquela noite eu só queria ser o tipo de alguém.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
O pouco que eu tive me fez maior

Foto: Stephanie Rabemiafara
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Anunciação

Pedrovisky, hoje seus pais descobriram que você é você. Não uma menina. Sua mãe deve ter chorado e seu pai estufado o peito de orgulho e alegria. Ainda vai demorar um pouco para o seu primeiro choro cortar o ar, mas estaremos de prontidão. Ao primeiro sinal da sua chegada mensagens em massa serão disparadas: Pedro Nasceu! Vamos comemorar no bar! Aliás, é bom ir se acostumando. Seus tios Malhados sempre arranjam uma desculpa para beber e celebrar a amizade.
Cresça rápido, garoto. Mas sem queimar etapas, por favor. Curta intensamente cada fase da sua vida. E nunca se afaste dos valores sagrados: rock and roll (não tenha vergonha de pedir orientação ao seu pai. Ele conhece os clássicos) cerveja Bohemia, bom humor, respeito ao próximo, amigos e família (porque são eles que seguram o teto quando a casa vem abaixo).
Talvez você nunca leia esse texto, mas, de qualquer forma, um pequeno aviso que poderá livrar a sua cabeça de um cascudo: Nunca beba o todyynho da Tia Uliana sem permissão! Entendeu? Nunca! Aliás, aproveite o máximo de nutrientes que puder, porque aqui do lado de fora a gente não aceita fraco na balada. Te cuida, moleque.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Indissociáveis
Sentamos na varanda, um ao lado do outro, de frente para o Atlântico. Exaustos, ainda bêbados e felizes pela noite anterior. O sol ainda estava sob os cobertores. Talvez pedindo a Deus mais 15 minutos de cochilo. Ela não entendia porque o dedo mindinho doía tanto. Eu procurava explicação para o arranhão na minha canela. Quando os primeiros raios finalmente apontaram no horizonte ninguém disse: “Que lindo!” ou “A natureza é um espetáculo!”. Ficamos em silêncio. Abraçados. Agradeci a Deus por estar vivo e ao lado dela. Porque estar ao lado dela faz (e continuará fazendo) toda diferença na minha vida.
sábado, 1 de maio de 2010
Mufino

Para os Malhados
Deus criou o mundo em uma semana. Mas foi no quinto dia que ele subiu no monte e disse aos discípulos: galera, sexta-feira é dia de abrir os caminhos. Domingo a gente descansa. Foi aquele alvoroço na Galileia. Daquele tempo pra cá nada mudou. Quando o relógio marca 18h é cada um por si e todos com o mesmo pensamento: deixar as aflições, problemas e aporrinhações do trabalho para trás. De preferência, trancadas na gaveta, dentro do armário, no HD do computador ou debaixo do tapete.
O boêmio tinha conhecimento das escrituras sagradas. Mas naquela sexta-feira, por ordem médica, bebeu coca-cola. Sentiu um leve tremor nas mãos. O polegar e o mindinho ainda tentaram largar o líquido estranho, mas ele jurou ao homem de jaleco branco que iria cumprir a risca suas orientações. Pediu mais uma lata. A tristeza aumentou. Até ficar mufino foi um pulo. Não era digno de estar naquela mesa. Pediu desculpas aos amigos de copo e coração. A solidariedade chegou em forma de mensagens fraternas, encorajadoras e reconfortantes:
- Antes coca-cola do que Nova Schin, seu farsante!
- Eu tô grávida e tenho desculpa. Mas você... Tsc.. Tsc... Que decepção!
- Você surtou? Como isto foi acontecer?
- Por favor, nem comente que me conhece!
Pagou a conta e caminhou até o ponto de taxi. Subiu a ladeira sorrindo. Não se faz amigos bebendo leite.
sábado, 24 de abril de 2010
Gastos Tabuleiros

Não tenho mais paciência para jogos. Guarde o sorriso matador, baby. Desvie o olhar de promessa para o outro lado da calçada. Feche o primeiro botão da blusa, pare de mexer o cabelo, desacelere a gesticulação, diminua o tom da voz. Aliás, talvez seja a hora de você começar a prospectar novos adjetivos para que seu ego não morra de inanição. Meus lábios já estão cerrados. Não, não há mais tempo para a última jogada. Seria inútil. Dados perdem força, velocidade e precisão em gastos tabuleiros.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Tampa não cai do céu
Enquanto isso na linha 48 (Santos Reis/Campus)...
- Você me ama?
- Claro que sim!
- Muito?
- Muito.
- Jura?
- Juro, juro, juro.
A essa altura do campeonato eu já estava impaciente no banco de trás. Ainda ensaiei uma intervenção do tipo: “Meu irmão, por que você não exige logo da sua namorada uma declaração com firma reconhecida. Na subida da Rio Branco tem um cartório”. Não disse. Só pensei. Mau humor operando na capacidade máxima. Segundo um amigo, mestre dos provérbios e citações, o caminho é sempre mais curto com alguém do lado. Disse isso depois de beber uma dose de Serra Limpa. Um sábio. Não pelas palavras, mas pela escolha da cachaça. Mas acho que eu entendi as entrelinhas. A vida só se dá pra quem se deu. E eu ainda esperando que a tampa da minha panela caia do céu. Acorda, meu filho. Do céu só cai água, neve, granizo, raios e Tupolev.
sábado, 20 de março de 2010
A gente nem se fala, mas a festa continua

Essa linha tênue que separa os sentimentos sempre me fascinou. Uma hora o cheiro de quem você gosta é parte indissociável da sua pele, do seu corpo. Em outro momento, você já nem consegue lembrar a piada (sem graça) que fazia ela/ele soltar aquela risada gostosa. Sentado na poltrona o tempo assiste e espera, sem nenhuma pressa, o primeiro tropeço, depois as falhas, as acusações, as cobranças, a raiva, o rancor, a mágoa, o desgaste, a separação, a dor e, por fim, o esquecimento. Não há mais chamego no fim de semana. Agora é só você e o seu cheiro. Durma bem, meu/minha amigo(a). Porque amanhã, no parque, no bar ou naquele show de rock, haverá um novo perfume que você ainda não sentiu. E com alguma sorte você voltará para casa com essa fragrância na camisa/blusa e com a convicção de que encontrou alguém especial. Parabéns. A linha voltou a ser esticada.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Abra os braços pra me guardar

Foto/ilustração: Julie Daniel
Cada louco com a sua mania. Eu também tenho uma: classifico os abraços que recebo. Na realidade, eu tenho uma lista dos melhores “abraçadores”. Um ranking que eu faço sem levar em consideração tempo de amizade ou intimidade. Infelizmente não é todo mundo que consegue receber outro corpo na mesma sincronia, energia e plasticidade. Por isso abraçar é uma arte. E há cinco mulheres que me tiram do chão (em mais de um sentido) cada vez que nossos corpos se encontram. Por um instante o criador puxa o freio de mão e tudo ao nosso redor fica em slow motion. O encaixe é tão perfeito que não há espaço vazio. Por mais que os carros buzinem, os amigos gritem, os celulares toquem e os namorados façam cara feia, ainda assim, estaremos colados. Sem pressa, reservas ou cerimônia. E para minha alegria uma morena de sorriso farto está prestes a entrar para o time. Darei a notícia da melhor forma possível: no conforto dos seus braços, sob o manto sagrado da madrugada e ao som de um samba antigo.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
O Selvagem
Ilustração: NilsyFoi batizado aos 15 anos. Quase um bicho do mato. Mas teve o privilégio e a honra de crescer sob a proteção de seis corações incríveis. Aprendeu a tabuada, a pedir licença antes de entrar, a subir na velha goiabeira de olhos fechados, a chorar sem dor, a escrever o próprio nome. Ontem foi visto remexendo escombros. Maldito selvagem. Por que ainda insiste em viver de migalhas se tuas mãos desajeitadas já conseguem segurar com firmeza a faca e o queijo?
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Procurando uma nova tecla
Seus textos estão repetitivos. Foi o que ela disse. Neste exato momento eu estou pensando numa forma de impressioná-la. Mas não sei por onde começar. Talvez o primeiro passo seja matar a terceira pessoa. Pronto. Matei. Quem está aqui é Marcelo Tavares, jornalista, magro, míope, fã de bohemia e boemia. Aquele mesmo cara que não precisa de nenhuma dica para saber o que anuncia o teu olhar.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Aromas

- Não. Eu não sou muito fã...
- Pois eu adoro café a qualquer hora!
- Eu posso só ficar olhando pra você?
Ela riu e continuou a mexer o café com a precisão de quem abre um cofre antigo. Sete voltas no sentido horário, com diminuição de velocidade a partir do quinto círculo. Nem mais, nem menos. O rapaz não via aquilo com espanto ou curiosidade, mas como um jeito divertido de conhecer suas manias.
Ninguém sabe definir a partir de que ponto as retinas se alinharam. Ele disse que foi logo depois que os cubos de açúcar derreteram, ela bateu o pé e afirmou que tudo aconteceu depois do segundo gole. Para a garçonete, que viu e ouviu a gostosa discussão, o estopim foi o toque involuntário das mãos na troca do cardápio. Os dois concordaram. A noite continuou com goles, pausas, sopros e sorrisos. Despediram-se com promessas de um amanhã. Cada um levando para casa o sabor do café na ponta da língua.
sábado, 5 de dezembro de 2009
Desmedida Moderação

Ele não queria banda na praça e fogos de artifício. Um abraço com mais calor já seria o suficiente para começar bem a noite de sexta-feira. E por que tanto temor em soltar um sorriso de 60 decibéis no meio da multidão? Por que essa maldita discrição se a cada espasmo o teu gemido ecoa além dos quintais? Pensou em dizer isso de uma forma carinhosa, não ofensiva e até poética. Pensou, mas não disse. Encheu o copo dela de cerveja e bebeu seus sentimentos com moderação. Gota a gota.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
O primeiro pedaço

Ela sempre ganhava o primeiro pedaço de bolo. Um ritual sagrado e previsível. Antes mesmo da faca cortar o recheio os amigos já sabiam o destino daquela fatia. O que eles não sabiam é que por trás daquele gesto existia uma história de perdas, ganhos e muito, muito, muito aprendizado. Soprou todas as velas. Não pediu grana, novas paixões, nem saúde de ferro. Apenas sussurrou numa frequência inaudível: Que o primeiro pedaço do meu bolo sempre encontre tuas mãos abertas. Se isso não for amor o que mais pode ser?
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Coração na boca

Depois de desligar o telefone ele desceu a ladeira como bloco de carnaval: eufórico. Correu para os braços da única mulher que o aceitou sem cerimônias. A longa tira de asfalto parecia não ter fim, mas nem por isso diminuiu o ritmo. As pernas longas e finas finalmente tiveram alguma serventia. Deixou para trás bêbados, guardas noturnos, prostitutas, três sinais, um cachorro, dois churrasquinhos e o carro do lixo. Chegou ao destino em tempo recorde, mas aquela arrancada foi fatal para os pulmões. Desabou no banco da praça. Exausto, exaurido, acabado. Foi aí que ela chegou.
- Oi!
- Eu vim o mais rápido que pude...
- Nossa! Você tá quase infartando!
- Tava com muita saudade...
- Calma. Primeiro recupera o fôlego.
- Eu queria que você soubesse...
- Não fala mais nada. Silêncio. Deita um pouco aqui no meu colo. Aquieta o coração. Temos todo o tempo do mundo, menino.
[EDITADO]
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Sobrevivência

De tanto voltar para casa de mãos vazias ele desenvolveu um estilo próprio de conduzir a vida. Instituiu a política da não expectativa. Desde então a frustração ficou mais leve, o fracasso mais amigo, a solidão mais reconfortante. Até sorriu depois de levar um “não” retumbante durante o fim de semana. A amiga, que testemunhou a atuação desastrosa do magricela, perguntou com a sinceridade de quem ainda não sabe calibrar o peso de um discurso:
- Como você pode viver por tanto tempo sem ter alguém a quem segurar a mão?
Ensaiou uma resposta, mas só saiu silêncio. Pagou a conta, beijou o seu rosto borrado de maquiagem e suor e caminhou em direção a porta de saída. Para o grande público era apenas mais um homem feliz voltando para casa depois de uma noite de diversão. Tolos. Nem imaginam que aquele sorriso foi a única maneira que ele encontrou de viver na pior.
domingo, 27 de setembro de 2009
Da cor do algodão

Resolveram dá uma pausa nas reflexões e devaneios. A garganta precisava de hidratação. Pediram uma bebida e brindaram por uma vida mais plena, com mais sorrisos, amizades sinceras e menos solidão. Goles longos para uma noite quente. Secaram as tulipas e ficaram mudos por 47 segundos. Até que uma onda sonora quebrou o silêncio em duas partes:
- Você acha que eu tenho algum charme?
- Acho. Você tem olhos gentis e um canino sedutor.
Ele riu da inusitada e inesperada resposta. Não tinha o costume de aceitar elogios, porque, segundo a sua frágil teoria, os adjetivos podem desestabilizar um homem. Mas ela sabia usar muito bem as palavras. Perdeu as contas das vezes que a devorou secretamente durante a noite alta. Tentando, em vão, decifrar nas entrelinhas as taras e temores que repousavam sobre a página branca. A mesma cor que dava ao seu corpo miúdo o ar de menina francesa, criada nos campos de algodão de um Seridó ancestral.
sábado, 19 de setembro de 2009
Kamikaze

- Vai, seu otário! Segura a mão dela e a conduz ao paraíso mais próximo.
O jeito doce da melhor amiga era o estímulo que faltava. Descolar da parede não foi fácil. Aliás, como alguém com pernas tão compridas demora tanto tempo para cruzar um percurso de aproximadamente cinco metros? Sem planos ou estratégias de vôo, o mais covarde dos kamikazes mergulhou para o seu momento de glória e ruína. Morreu às 2h35. Laudo da perícia: asfixia por beijos ininterruptos. Deixou como herança duas fichas de cerveja (Bohemia. Que fique bem claro!), um panfleto (sobre um festival de rock) e seis reais e quinze centavos. Alguns freqüentadores do bar riam da cena, caçoavam, se eles soubessem que levariam uma vida inteira procurando por algo assim...
Parte do texto foi inspirado no poema “Indivisíveis”, de Mário Quintana.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Encontros casuais em ambientes mal iluminados

Aos esbarrões. Era sempre assim que os dois se encontravam pela madrugada. Cumprimentos iniciais, abraços e sorrisos de até sempre. Um ritual gostoso, mas muito breve. Ela, ao lado das amigas inseparáveis; ele, na companhia dos comparsas de copo e boemia. Naquela noite ainda tentou um “fica mais um pouco”. Mas as circunstâncias não o deixaram pôr em prática o texto ensaiado. Passou o resto da semana refém do calendário. Cruzou os dedos e pediu ao santo que o abençoasse com um novo encontro casual. Não foi atendido. Era um homem de pouca fé. Resignou-se. Voltou para os becos e calçadas mal iluminadas da zona leste. Na pressa de ir ao banheiro bateu de frente com uma jovem que saía do balcão do bar. Primeiro cabeça com cabeça, depois boca com boca, sede com saliva, língua com orelha, dente com pescoço. Sim, era ela. Ainda lembram daquele texto ensaiado? Ficou tão antigo quanto o desejo de ir ao banheiro.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Adeus vida vulgar!

terça-feira, 23 de junho de 2009
O amor é um grande laço (ou seria um nó?)

--- Não dá.... Você é meu amigo!
A solidariedade dos passageiros com o rapaz foi imediata. Ele foi consolado com palavras de fé, esperança e positividade. Recebeu manifestações de apoio e carinho até a hora de descer. Aliás, foi justamente perto da porta que Flávia sorriu pra ele. O brilho nos olhos havia voltado. O que aconteceu com Camila? Passou o resto da viagem flertando com o cobrador. O amor é um grande laço. É ou não é Djavan?
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Deixa eu passar com minha dor

domingo, 26 de abril de 2009
Encantos da Cidade Baixa
Foto: Canindé SoaresCruzou a longa tira de asfalto como uma descarga elétrica. Fulminante. Cortou sinais e infringiu leis, como se estivesse fugindo de mil demônios. Realmente estava, mas para exorcizá-los precisaria muito mais que uma bíblia, água benta e versículos em latim. Por isso escolheu um templo a céu aberto, sem altar, lustres e vitrais. A rua estreita e mal iluminada, a multidão e o seu burburinho, risos fartos, olhares libertinos, coxas, quadris, decotes e pescoços esperando por uma mão carinhosa e atrevida. A cidade baixa era o seu segundo lar. Bebeu para abrir os caminhos, abraçou velhos amigos, gargalhou sem cerimônia e sambou nos paralelepípedos cobertos de história. E quando já parecia estar saciado eis que surge a moça de pele clara. Aqueles olhos verdes denunciavam claramente a sua intenção. Entrou em pânico. E numa atitude desesperada o boêmio, visivelmente nervoso, sussurrou para o amigo do lado:
- O que eu faço agora?
O beijo da moça chegou antes da resposta. Assim como a chuva que começava a cair sobre o antigo casario.
terça-feira, 31 de março de 2009
Mãos caprichosas
- A vida exige uma certa urgência, meu rapaz.
Logo em seguida a primeira lágrima caiu. Depois outra e outra e outra. Não era um choro de tristeza, piedade ou nostalgia. Apenas o reflexo de uma cebola recém-cortada tentando chamar a nossa atenção.



