quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Encaixe

Se o tesão quisesse realmente seguir “padrões de beleza” andaria com uma fita métrica. Mas nós sabemos que ele jamais se submeteria a uma condição tão tola e descabida. Por isso, não se engane, aonde existir corpo, desejo, pressa e consentimento (nesse ponto há controvérsias) o tesão estará agindo. Abrindo botões, deixando marcas, eriçando pelos. Não lembro em que parte da festa eu a puxei para o banheiro. Também não lembro se o atrevimento me rendeu tapas e pontapés. A única imagem que permanece cristalizada na consciência são as paredes brancas e o vaso sanitário sustentando o nosso peso. Por várias vezes o trinco girou em desespero. Pedi desculpa às bexigas alheias e fiquei encaixado no quadril dela por vários minutos. Há tempos não tinha uma visão tão bonita. A menos de um palmo de distância um sorriso maior do que eu dizia: “Por favor, não pare. Não deixe ninguém sabotar a nossa loucura”.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sem olhar pra trás

“Quem me conhecer a partir de agora vai ter o melhor de mim”. A decisão foi tomada logo depois de mastigar o último pedaço de sanduíche natural. Desligou a luz da cozinha e foi lavar o rosto. Mas as mãos em concha não ofereciam a quantidade de água suficiente para lavar a sua nova postura. Despiu-se. Por longos minutos esqueceu as campanhas educativas e praticou o desperdício. Girou a válvula até o limite. Sob o chuveiro ficou a mercê de uma enxurrada. Imóvel. Talvez esperando o que ficou da pele antiga descer ralo abaixo. Tentou se lembrar de como era antes de morder o pão, mas não conseguiu reconstituir a sua própria imagem. Nem poderia. A mulher que escolheu ser, naquela tarde de domingo, já não estava mais subjugada a um passado de perdas recorrentes, de ciclos de covardia, de imobilidades periódicas. Estava enxuta, limpa, lúcida. Pronta para vestir uma roupa nova com estampas graúdas de recomeço.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Os Imcompreendidos

- Tava com muita saudade de você... Muita...

- Amor, você vai achar loucura se eu disser que deu vontade de comer bala soft vermelha?

- Você ouviu o que eu disse, Flávia?

- Eu também gostava muito daquela amarela...

- Tá brincando comigo, né?

- Será que ainda existe no mercado?

- Tudo bem, você venceu, Flávia. Eu vou pra casa.

- Amor, na volta você traz uma bala soft? Vermelha, viu?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Meteóricos

Estávamos famintos. Sem tempo para cerimônias e regras de etiqueta. Dispensamos os talheres. Rasgamos a carne no dente. Deixamos hematomas. Nos devoramos em um banco infinitamente menor que o nosso apetite. Joguinhos são indicados para quem ainda tem tempo a perder. Não disponho mais desse luxo. Não mais. Naquele carro zíper e botões conheceram a velocidade da luz. Como se o mundo fosse acabar logo depois do último grito, do derradeiro gemido, do suspiro final, do nosso alegre, suado, pervertido e sorridente cansaço.

domingo, 2 de outubro de 2011

Antes do ponto

Eles já conseguem ultrapassar com desenvoltura os monossílabos mutiladores. Nem sempre foi assim. Ironicamente a fartura de verbos e complementos começou na maré baixa, próximo aos recifes. O vinho aberto, o breu, a maresia, o sal, o mundo a rodar e ela procurando um atalho seguro para sair da juventude. O tempo chegou para os dois. A menina ganhou páginas de conhecimento, o rapaz um jeito de disfarçar a idade. Foram vistos conversando no ônibus que liga o centro a zona sul. Ela nem percebeu, mas o que ele mais queria naquele pedaço de tarde era transformar dois dedos de prosa em uma mão espalmada, grande, inteira.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Frente e verso

Eu não tive um sonho revelador, não ouvi vozes e nem tampouco presenciei um clarão no céu. O sinal veio diretamente das mãos dela, sem intermediário. Era uma carta (com frente e verso!). Pediu que eu abrisse só depois de sua saída. Obedeci. Esperei ela abrir a porta pra só então rasgar com cuidado o envelope. O perfume salpicado na folha foi uma estratégia bem elaborada. Mas o que estava em minhas mãos iria me tirar do prumo como um velho trem descarrilado. Comecei a ler em pé, encostado no balcão, mas depois de alguns segundos os joelhos dobraram com o peso dos parágrafos. Fui obrigado a sentar, caso contrário, nunca chegaria ao ponto final. Pedi uma dose de volúpia. Depois mais outra. Em seguida, uma terceira. O garçom não se conteve e puxou conversa:

- Dia difícil?

- Não, não

- Mas tanta sede, em tão pouco tempo, deve ter uma razão...

- É que eu acabei de descobrir o amor em letras graúdas. Sabe, meu velho, isso assusta. Principalmente para quem passou a vida inteira sozinho, à sombra dos outros, amaldiçoado pelo manto negro da invisibilidade.