
sábado, 17 de setembro de 2011
Escancarados

domingo, 11 de setembro de 2011
O expectorante

Eu não sei em que parte da jornada a ficha cai e finalmente temos a certeza de que encontramos alguém especial. Nas minhas andanças vi muitas fichas que jamais tocaram o chão. Mas na semana passada uma delas completou a sua trajetória. Ninguém saberá se aquele foi o seu primeiro voo. Acho que não. Pela devoção de suas palavras o amor já estava no peito daquele rapaz há algum tempo. Só não tinha coragem de dizer publicamente que estava apaixonado, de escrever nas redes sociais o quanto aquela mulher mudou a sua rotina de uma forma irreversível. Ele nem se deu conta, mas a cerveja começou a funcionar como um velho e eficiente expectorante. E entre um gole e outro confessou que era o homem mais feliz do mundo. Por trás da baía o sol encerrava o seu expediente. Pediu mais uma garrafa ao garçom. Era sábado. Dia de sorrisos imensuráveis.
sábado, 10 de setembro de 2011
Acima de tudo

Foto Deviantart
Cresceu acreditando que não possuía talento algum. A única coisa da qual se orgulhava era a capacidade de subir na goiabeira de olhos fechados. Parecia um calango cego deslizando entre as folhagens. E foi lá, no último galho, que o grito chegou ao chão.
- Mãe, por que eu tenho que levantar da cama todas as manhãs?
- Para fazer as pessoas sorrirem, respondeu sem largar o sabão e a toalha encardida.
- Mas eu não sou palhaço, mãe! Eu odeio palhaço! Odeio!
- Tá certo. Você é o trapezista da goiabeira.
Ele ria. Sentia-se maior. Era alguém na vida. Finalmente.
domingo, 7 de agosto de 2011
Confissões
Um dia nossa história não vai passar de uma empoeirada lembrança. Mas quando essa hora chegar eu quero estar lúcido para lembrar de como tudo começou. E dizer: filho, aquela mulher na bilheteria do cinema foi minha primeira grande paixão. Ele vai comentar sobre a sua beleza e me questionar sobre o que deu errado. Falaremos de escolhas e de como a vida tem um jeito próprio de carregar as pessoas de um lado para o outro. Concordaremos em vários pontos, sobretudo no meu pedido de manter aquela conversa em segredo. Um sorriso sacramentará o acordo. E o doce da coca mais sabor ao nosso fim de tarde.
sábado, 6 de agosto de 2011
Iluminados
Ela avisou ao namorado: amor, hoje eu quero sair só. Deixou para trás o abraço preferido e foi ao encontro de outro homem. Não fazia isso com frequência, mas a saudade cria certas urgências que não podem ser negligenciadas. Poderia ter escolhido uma mesa recuada, sob a proteção das sombras, dos olhares curiosos, das línguas ferinas. Mas por que esconder um carinho que era explícito? A luz amarela da antiga luminária apenas reforçou (claramente) a felicidade dos dois. Naquela noite nada ficou em segundo plano. Tudo chegou ao mesmo tempo. O sorriso dela, a alegria dele, as bohemias, a chuva passageira e a promessa de que tudo aquilo iria se repetir.
domingo, 24 de julho de 2011
O acaso e seus caprichos
O nosso primeiro encontro poderia ter começado de forma mais romântica. Um esbarrão casual no corredor da livraria seria perfeito. Livros ao chão, pedidos de desculpas e elogios sobre a escolha literária de cada um. Outra opção, não menos inspiradora, seria a última sessão de cinema. Os dois chegando simultaneamente na bilheteria, atrasadíssimos e esbaforidos de tanto correr. Em cartaz, Woody Allen, claro. Depois de atravessar a roleta eu diria: “essa foi por pouco!”. O sorriso dela seria a deixa para alinhavar a frase seguinte. Mas o acaso tinha outros planos para nós dois. Nos conhecemos em uma birosca na cidade baixa. Altar dos boêmios, ninho dos bêbados, palco da malandragem. O nosso maior luxo foi uma cerveja quente servida no copo de plástico. Mas naquela noite eu não queria merecer outro lugar. Por isso, antes de dormir, cruzei os dedos e pedi que ela me reconhecesse amanhã ou daqui a um mês. Ela fez mais do que isso. Largou os amigos na calçada, desviou de cadeiras, mesas, garçons e bandejas, enfrentou a euforia de uma pequena multidão, pediu licença, desculpe, obrigada, empurrou, foi empurrada, deu rabissaca e até um bicudo discreto na canela de uma loira, por fim, me encontrou no lado mais escuro do bar. Não deu boa noite, decidiu primeiro recuperar o fôlego nos meus braços.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Na ponta dos dedos
Acho engraçado o seu joelho nervoso, subindo e descendo freneticamente, enlouquecido, procurando acompanhar a velocidade das sinapses e o furor dos dedos sobre o teclado. Nunca entendi o motivo de tanta brutalidade. Acho que o “enter” de tanto apanhar virou masoquista. E o que é pior, as teclas “B”, “A”, “T”, “E” e "!" estão indo no mesmo caminho. Apesar de não concordar com esse açoite eu gosto do resultado final. Há dor e poesia nos seus textos, menina. É como se a página em branco reconhecesse e recompensasse o teu esforço barulhento e solitário. Porque só ela é capaz de suportar a agonia de tantos desejos estrangulados.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Do lado de lá do portão

Os gritos por trás do muro anulavam os meus pedidos de quero entrar. Mas o homem do microfone baixou o som e finalmente alguém girou o trinco no sentido horário. O pesado portão de madeira se abriu. No centro do terreiro a bela morena, descalça e de olhos vendados, tateava a melhor direção para o golpe fatal. Balas e cacos de argila cortaram o ar anunciando que ali havia uma nova vencedora. Horas mais tarde, já recuperada do ritual, ela me revelou o seu verdadeiro nome. Disse também que era de peixes. Não sei se existe alguma ligação astral ou esotérica, mas é a segunda vez que eu sonho com seus pés bailando cegamente sobre a terra molhada.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Saliva e jasmim
Não é de hoje que o tesão nos espreita. Sempre se esgueirando por entre coxas, pescoços, mãos, ombros, costas, quadris. Um dia ele vai cansar dessa brincadeira, desse jogo de esconde-esconde, de correr sobre a pele, de se enroscar nos pelos. Um dia, completamente exausto e com sede, o tesão vai pedir um copo com água, mas eu darei saliva. Essa conversa eu tive com os meus botões. Os mesmos botões que horas mais tarde avançaram famintos sobre o decote avassalador, que apertaram os seios macios e perfumados contra o meu peito. Os mesmos botões que voltaram pra casa cheirando a damasco, âmbar, vetiver e jasmim. O cheiro dela.