Um dia nossa história não vai passar de uma empoeirada lembrança. Mas quando essa hora chegar eu quero estar lúcido para lembrar de como tudo começou. E dizer: filho, aquela mulher na bilheteria do cinema foi minha primeira grande paixão. Ele vai comentar sobre a sua beleza e me questionar sobre o que deu errado. Falaremos de escolhas e de como a vida tem um jeito próprio de carregar as pessoas de um lado para o outro. Concordaremos em vários pontos, sobretudo no meu pedido de manter aquela conversa em segredo. Um sorriso sacramentará o acordo. E o doce da coca mais sabor ao nosso fim de tarde.
domingo, 7 de agosto de 2011
sábado, 6 de agosto de 2011
Iluminados
Ela avisou ao namorado: amor, hoje eu quero sair só. Deixou para trás o abraço preferido e foi ao encontro de outro homem. Não fazia isso com frequência, mas a saudade cria certas urgências que não podem ser negligenciadas. Poderia ter escolhido uma mesa recuada, sob a proteção das sombras, dos olhares curiosos, das línguas ferinas. Mas por que esconder um carinho que era explícito? A luz amarela da antiga luminária apenas reforçou (claramente) a felicidade dos dois. Naquela noite nada ficou em segundo plano. Tudo chegou ao mesmo tempo. O sorriso dela, a alegria dele, as bohemias, a chuva passageira e a promessa de que tudo aquilo iria se repetir.
domingo, 24 de julho de 2011
O acaso e seus caprichos
O nosso primeiro encontro poderia ter começado de forma mais romântica. Um esbarrão casual no corredor da livraria seria perfeito. Livros ao chão, pedidos de desculpas e elogios sobre a escolha literária de cada um. Outra opção, não menos inspiradora, seria a última sessão de cinema. Os dois chegando simultaneamente na bilheteria, atrasadíssimos e esbaforidos de tanto correr. Em cartaz, Woody Allen, claro. Depois de atravessar a roleta eu diria: “essa foi por pouco!”. O sorriso dela seria a deixa para alinhavar a frase seguinte. Mas o acaso tinha outros planos para nós dois. Nos conhecemos em uma birosca na cidade baixa. Altar dos boêmios, ninho dos bêbados, palco da malandragem. O nosso maior luxo foi uma cerveja quente servida no copo de plástico. Mas naquela noite eu não queria merecer outro lugar. Por isso, antes de dormir, cruzei os dedos e pedi que ela me reconhecesse amanhã ou daqui a um mês. Ela fez mais do que isso. Largou os amigos na calçada, desviou de cadeiras, mesas, garçons e bandejas, enfrentou a euforia de uma pequena multidão, pediu licença, desculpe, obrigada, empurrou, foi empurrada, deu rabissaca e até um bicudo discreto na canela de uma loira, por fim, me encontrou no lado mais escuro do bar. Não deu boa noite, decidiu primeiro recuperar o fôlego nos meus braços.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Na ponta dos dedos
Acho engraçado o seu joelho nervoso, subindo e descendo freneticamente, enlouquecido, procurando acompanhar a velocidade das sinapses e o furor dos dedos sobre o teclado. Nunca entendi o motivo de tanta brutalidade. Acho que o “enter” de tanto apanhar virou masoquista. E o que é pior, as teclas “B”, “A”, “T”, “E” e "!" estão indo no mesmo caminho. Apesar de não concordar com esse açoite eu gosto do resultado final. Há dor e poesia nos seus textos, menina. É como se a página em branco reconhecesse e recompensasse o teu esforço barulhento e solitário. Porque só ela é capaz de suportar a agonia de tantos desejos estrangulados.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Do lado de lá do portão

Os gritos por trás do muro anulavam os meus pedidos de quero entrar. Mas o homem do microfone baixou o som e finalmente alguém girou o trinco no sentido horário. O pesado portão de madeira se abriu. No centro do terreiro a bela morena, descalça e de olhos vendados, tateava a melhor direção para o golpe fatal. Balas e cacos de argila cortaram o ar anunciando que ali havia uma nova vencedora. Horas mais tarde, já recuperada do ritual, ela me revelou o seu verdadeiro nome. Disse também que era de peixes. Não sei se existe alguma ligação astral ou esotérica, mas é a segunda vez que eu sonho com seus pés bailando cegamente sobre a terra molhada.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Saliva e jasmim
Não é de hoje que o tesão nos espreita. Sempre se esgueirando por entre coxas, pescoços, mãos, ombros, costas, quadris. Um dia ele vai cansar dessa brincadeira, desse jogo de esconde-esconde, de correr sobre a pele, de se enroscar nos pelos. Um dia, completamente exausto e com sede, o tesão vai pedir um copo com água, mas eu darei saliva. Essa conversa eu tive com os meus botões. Os mesmos botões que horas mais tarde avançaram famintos sobre o decote avassalador, que apertaram os seios macios e perfumados contra o meu peito. Os mesmos botões que voltaram pra casa cheirando a damasco, âmbar, vetiver e jasmim. O cheiro dela.segunda-feira, 16 de maio de 2011
Amor de balcão
Já cheguei ao pub mal intencionado. Estava numa secura de fazer dó. A primeira loira que apareceu na minha frente com cara de devassa eu peguei. A negociação foi rápida. Paguei a vista. Enquadrei ali mesmo, no pé do balcão. Um, dois, três goles sem parar. A danada era muito gostosa. O casal de adolescentes que estava ao lado fez uma cara de desaprovação (talvez por conta da minha avidez). Eu respondi na hora: tá vendo essa loira que eu tô agarrando? Eu paguei por ela! Atrás de mim o salão pegava fogo. Era o rock and roll abençoando nossa relação.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Velha guarda
domingo, 24 de abril de 2011
Formato Mínimo
Nunca soube demonstrar interesse. Não era por maldade, frigidez ou charminho. Era o jeito dela. E ponto. Os amigos cobravam mais efusividade, os amantes exigiam frases de entrega e devoção e a família pedia doses extras de afagos públicos e explícitos. Mas apesar de tantos apelos ela continuava a amar discretamente, querer sem histeria, cobiçar sem ganância, paquerar sem alarde, se entregar sem exageros. Na realidade, ninguém sabia o quanto aquela mulher queimava por dentro (a não ser o seu gastroenterologista que descobriu semana passada a causa do maldito refluxo incendiário). Sexta-feira, num impulso sentimental, eu expulsei o que estava guardado no peito há meses: eu gosto muito de você! A resposta chegou como um tiro: ok! E antes que eu reclamasse da economia das palavras ela completou sorrindo: Não se assuste, moço. O amor nem sempre é enxurrada.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Procurando um título...
Foto Deviantart
Quando você (finalmente) descobrir o significado do verbo surpreender, por favor, me procure. O cachorro está preso e o portão sem cadeado.
Clicou no botão enviar e fez a única coisa que estava ao seu alcance: cruzou os dedos (numa tentativa fajuta de atrair a sorte). A resposta não veio, o ferrolho não fez barulho e nenhum latido anunciou a chegada de uma nova visita. Depois de muita espera fez o que todo mundo faz com as ausências. Resignou-se. O que ele não sabe é que o querer, além de não dormir, tem um apetite voraz e um passatempo curioso (quase sádico). Costura em silêncio corações baqueados, só para vê-los perder a estribeira novamente.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
A maldição da beleza
Dia desses estava pensando no fardo que as mulheres lindas, inteligentes, solteiras e bem sucedidas são obrigadas a carregar. Na quantidade de homens interessantes (o interessante em questão vai muito, muito além da estética) que elas deixam de conhecer justamente por possuírem tais atributos. Eu não sei se existe pesquisa científica, mas é comum você ler e ouvir que parte da classe masculina se sente intimidada e até assustada na hora de se aproximar, de começar uma conversa, de arriscar um diálogo. Ou seja, se elas não tomarem a iniciativa tudo acaba em zero a zero. Eu faço minha parte. Tento assustá-las primeiro. Sim, meus amigos, até a feiúra tem um propósito de ser.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Lado a lado
Domingo não é o meu dia preferido. Ele não carrega a excitação das sextas, tampouco os desatinos dos sábados. Vive bocejando pelos cantos, com uma puta ressaca e preguiça de viver. É um dia sem tesão. Era. Até aquela mensagem chegar e tirar o prumo das minhas certezas.
Talvez eu não seja uma boa companhia, mas, ainda assim, eu preciso sair hoje...
Fiquei na dúvida se aquele texto era um desabafo, um convite, um desafio ou um passo para uma armadilha. Paguei pra ver. Decidimos por um bar longe dos holofotes. Sentamos perto do palco, pés na grama, coração leve, blues e bossa a nosso favor. Em quase três anos de convívio nunca estivemos tão perto um do outro (seja verbal ou fisicamente). Tentei dizer isso, mas Menescal e Bôscoli chegaram matando. Esperei ela terminar a última estrofe de “Ah, Se eu pudesse” e refiz a pergunta: o que você vai fazer no próximo domingo? Ela riu, pediu um gole da minha cerveja e respondeu: um passo de cada vez, meu querido, um passo de cada vez....
terça-feira, 5 de abril de 2011
Urgências
Ele a puxava para um lado, por tesão, e eu para o outro, por saudade. Ela, de braços abertos, olhava pra mim esperando que eu entendesse a urgência da sua partida. Sob a tenda, uma disputa silenciosa. Em jogo, mais atenção e carinho. O abraço rápido, sem calor e burocrático selou a minha derrota, que já era anunciada antes mesmo do cabo de guerra começar. Na realidade, o primeiro indício de que eu a perderia na multidão foi revelado entre o primeiro e o terceiro bater de pálpebras. Foi nessa fração de segundos que eu li o recado em seus olhos negros: “Desculpa, Celo. Agora não. Vou ali ser feliz e não volto”. Ironicamente o DuSouto começou a cantar “aonde está meu outro par da sandália havaiana”. Comprei mais uma cerveja quente e empurrei goela abaixo o maldito nó atravessado na garganta. quinta-feira, 10 de março de 2011
Um passo a frente
Foto Deviantart
Cansado de andar em círculos
De ver meio mundo passar por mim
Dos olhares piedosos
Das esmolas de carinho
Não quero nada disso
Eu só preciso de uma pá e um pacote de cal
A cova eu mesmo abro
Quero enterrar o passado, tudo que me atrasa, me engana, me segura e me retém
o mais fundo possível, de preferência, já bem próximo a porta do inferno.
terça-feira, 1 de março de 2011
Hora de voltar

Foto: Mariza Rodrigues
Ela sabia de olhos fechados como abrir aquela fechadura. Uma habilidade irretocável mesmo sob efeito do álcool, da urgência de um tesão qualquer ou do breu apavorante. Mas dessa vez não foi fácil girar a chave da porta pela última vez. Essa era uma escolha que a rebobinaria para uma estranha intimidade, com paisagens familiares, caminhos conhecidos, antigos costumes e manias ancestrais. Trancou a poeira e os cômodos vazios com um nó na garganta. A lágrima caiu antes da primeira volta. Mais uma volta, mais lágrimas. Estava deixando para trás metros quadrados de teimosia, esperança, recompensas, tentativas, investimentos, erros e glórias. Quero acabar de viver o que me cabe, disse isso antes de largar o trinco, antes de sumir no estreito corredor, antes de descer as escadas, antes de bater o portão sem fazer alarde.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
O segredo dos seus olhos

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Nocaute
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Diário de Bordo

Foto: Uliana Fechine
Foi preciso alguém gritar “solta as amarras!” para ela finalmente entender que era hora de levantar âncora e explorar novos portos. Começou pelos inseguros. Afinal, de previsibilidade já bastava aquela rotina massacrante, o percurso para o trabalho, a sequência de exercícios na academia e o alface na salada. Por que se contentar com a ilhota ao lado se a embarcação tinha autonomia para chegar ao continente? Aqui do farol eu vejo suas manobras. Algumas cheias de ousadia, graça e sensibilidade, outras na base da força e perseverança. Não vou questionar o poeta, eu sei que navegar é preciso. Mas tão importante quanto isso é manter o leme firme e possuir um coração disposto a cometer (sempre que necessário) desatinos em nome de uma boa aventura.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
A negociação
Diariamente o nosso olhar esbarra em retinas alheias. O perigo (ou seria sorte?) é quando ele cristaliza, quando entrega de bandeja nossas intenções a um estranho. Lembro bem quando ela chegou (acompanhada de mais três amigas) e pediu uma cerveja ao dono da birosca. A última garrafa estava na minha mão. Uma Nova Schin, quente e cobiçada. A negociação foi tensa, olho no olho, gota a gota. Eu, irredutível, ela, determinada. Talvez a Ribeira nunca tenha testemunhado um duelo por tão baixo valor (e teor). Mas nós dois sabíamos que dinheiro não era problema naquela madrugada. Só queríamos beber para expulsar os demônios. A espuma no copo selou o impasse. Deixou para trás um nome, um sobrenome e um muito obrigado. Confiei nela, na minha memória e nas ferramentas de busca. O rastro digital me levou a uma janela branca, com moldura azul. É de lá que eu recebo notícias e espero pacientemente por um novo encontro livre de barganhas.quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
A voluptuosa de Lagoa Seca
Grande ela não era. Nem precisava. Aquele corpo compacto já causava um transtorno considerável à vizinhança. Quem mais sofria era dona Isabel. A viúva tinha investido uma grana preta na reforma do imóvel. O problema é que a obra andava a passos de tartaruga. O motivo de tanta lerdeza só veio à tona quando ela casualmente cruzou com a morena da motoca. Foi aí que descobriu a causa da colossal improdutividade. Se para a ingênua senhora a ficha caiu naquele início de tarde, para os funcionários da construção o "ócio contemplativo" era uma atividade corriqueira e prazerosa.
O ronco do escapamento era o sinal para que serventes e pedreiros largassem as ferramentas e corressem para os seus postos de observação. Sobre a laje inacabada eles acompanhavam com olhos de lince cada movimento da moça. Da retirada do capacete até a entrada no escritório. E, cá entre nós, desviar o olhar daquelas coxas torneadas e do decote banhado de suor seria um ato de indelicadeza. Ela ria. Um sorriso gostoso de quem é cúmplice de um assassinato sem vítimas ou culpados.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Acesa

Foto: Deviantart
Cada ser humano é uma fonte de eletricidade. E nessas minhas andanças pela madrugada sempre reservo um tempo para observar essa energia invisível em ação. Assim como há bem-humorados e ranzinzas, há também quem ilumine corações ou produza energia suficiente apenas para manter um bico de luz em funcionamento. Naquela noite ela estava diferente. Tinha fome de vida e uma capacidade surpreendente de criar campos magnéticos.
domingo, 21 de novembro de 2010
Com trigo e com afeto

Foto Deviantart
Gosto da figura do anti-herói porque dele se espera tudo, menos a vitória. E quando finalmente ele triunfa (seja salvando o mundo de um ataque alienígena ou ganhando um elogio da mocinha da história) passa a andar com um sorriso perpétuo pela cidade. Eu me senti mais ou menos assim quando ela ligou pra o meu celular: e a nossa Bohemia? Pode ser hoje à noite? Talvez para os “fodões” (prometo escrever sobre eles outra hora) seja corriqueiro dividir a mesa com mulheres belíssimas, mas eu acordo sem estratégias e planos de conquistas. Simplesmente acordo.
E foi assim, sem pretensões, que eu bebi a minha primeira cerveja de trigo com a mulher mais linda do casamento. Nada de textos ensaiados ou frases feitas. Estávamos desarmados e a favor da correnteza. O temor das pausas constrangedoras deu lugar a uma espontaneidade quase absurda. Enquanto ela falava de suas peripécias lembrei da primeira vez que escrevi a palavra “saudade” na janela branca. Não sabia se era hora para dizer aquilo, mas em 12 segundos chegou a resposta: eu também! E o nosso encontro, que há um ano parecia algo completamente improvável, terminou com sorrisos de até sempre.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Pé na tábua!

Fotos Deviantart
Vem comigo, eu tenho um plano. Disse a frase sem pensar nas consequências. O timbre foi suficiente para a garota enxergar nas 23 letras a tão esperada chance de um novo recomeço. E ela não titubeou: amor, tenho um coração maior do que eu para doar. Tinha mesmo. Apesar da estatura mediana a gente ouvia de longe o pulsar no lado esquerdo do peito. Mas quem estava no posto de gasolina garantiu que o motorista do fusca amarelo partiu em disparada. Sozinho. Deixando para trás um rastro de poeira, falsas promessas e um sombra vagando em silêncio.
domingo, 31 de outubro de 2010
Na trave

quarta-feira, 20 de outubro de 2010
A dama do lotação

terça-feira, 12 de outubro de 2010
Fora de moda

Foto Deviantart
Você se veste muito mal. A frase foi à queima roupa. Fulminante como um tiro de calibre 12. Sobrevivi, mas os estilhaços me forçaram a interpretar com mais clareza os sinais que vinham do espelho. Na manhã seguinte tirei a barba e cortei o cabelo. Escolhi a camisa menos pálida, troquei a velha bermuda por uma calça e limpei meu único tênis. Não sei ao aonde quero chegar com isso. Impressioná-la? Não carrego a falsa esperança de ficar atraente. O que eu tenho de mais valioso é um patrimônio imaterial de valores não estéticos. Mas parece que hoje em dia isso é um acessório completamente fora de moda.
sábado, 2 de outubro de 2010
Canção para viver mais

Já estava com o pé no primeiro degrau do ônibus, mas decidiu voltar. Tirou da sacola o LP preferido e disse (voz de quem acredita no futuro): para você ouvir quando a saudade for maior que a soma dos nossos interurbanos. A música nunca mais parou de tocar. E a vida dos vizinhos ganhou um novo ritmo.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Um novo perfume
Eram incapazes de identificar notas de jasmim, canela, sândalo ou gardênia, mas mesmo assim insistiam em descobrir a fragrância da ruiva sentada na cadeira ao lado.
- Isso é perfume francês, mané!
- Boy, pode ser até sabão de coco. Não faz diferença. Ela é gostosa de todo jeito.
Enquanto a inútil discussão rolava na mesa a garçonete enchia as tulipas. Retirou a garrafa vazia e voltou para o balcão. Ficou a esperar o aceno de um novo cliente, o pedido da madame, a exigência de um boçal qualquer. Na mão direita, lápis e papel, no pensamento, um desejo quase insano de sobrevivência: tirar da pele o maldito cheiro de roupa guardada.
domingo, 12 de setembro de 2010
Eu e mais ninguém

Velha amiga, hoje a madrugada está mais silenciosa. Estranhamente Shazam não perseguiu o gato preto. A moça do crack ainda não passou com o seu vasto repertório de palavrões e o meu vizinho insone adormeceu sem derrubar nenhum prato. Estou me sentindo um bocado só (apesar do Orkut atestar categoricamente que eu tenho quase 400 amigos). Queria te contar sobre a maldição de ser transparente e o peso que é carregar esse vazio nas costas por tanto tempo. Aprendi a curar minha ressaca com chá de boldo. Mas nunca me explicaram o que fazer com a solidão. Esse é o tipo de hemorragia que não estanca com band-aid.
domingo, 29 de agosto de 2010
De grão em grão

Nunca acreditei na felicidade como um pacote. Normalmente ela vem em pequenos pedaços, fios, nacos, lascas. Por isso aprendi desde cedo a “lamber os beiços” com porções econômicas. Vamos encher o nosso pote, baby. Mas sem correria, desatino e estardalhaço. De grão em grão. Ao fim da semana teremos um banquete. E então, longe dos franco-atiradores, dormiremos em paz, saciados de corpo, gozo e alma.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Cicatrizes
Você seria capaz de produzir uma crônica que tivesse como tema uma cicatriz do seu corpo? Esse questionamento inútil veio a tona nesses últimos 12 dias que fiquei trancado em casa, me recuperando de uma pequena cirurgia. Sabe como é... Mente vazia é oficina do diabo. A ideia é simples. Convidaria um número “x” de amigos e cada um deles escreveria sobre uma cicatriz do corpo. Reconheço que a tarefa, em alguns casos, poderia ser dolorosa. Afinal, corre-se o risco de se reviver lembranças não muito agradáveis. Mas acho que, ainda assim, o resultado seria instigante. Teríamos um apanhado de histórias de vários gêneros, do drama a comédia.
Eu tenho uma cicatriz na testa que entraria facilmente na segunda categoria. Consegui a marca batendo de frente em um poste. Detalhe: eu estava caminhando. Como eu consegui essa proeza? Isso você só vai descobrir quando comprar o livro “Cicatrizes”. Na realidade, o projeto só existe na minha cabeça. Portanto, ainda dá tempo de você vasculhar a sua pele em busca de algum vestígio que valha uma boa história. Aliás, vale tudo. Marca de bala, faca, vidro, prego, gilete, mordida, estilhaço, galho de árvore, queimadura... Mas, pelo amor de Deus, não force a barra só pra conseguir um espaço no livro. Lembre-se: automutilação é fim de carreira.
sábado, 14 de agosto de 2010
Me diz que eu sou seu tipo

Tenho amigos que deliram com motores e cifras. Minhas ambições sempre foram mais acanhadas. Mas ontem saí de casa com um propósito: quebrar a banca. Apostei alto. Empenhei todo o meu reino (com dragão e tudo). Queria a morena na ponta dos pés, estrangulando meu pescoço, esmagando vértebras, rasgando a minha carne com os caninos do desejo. Naquela noite eu só queria ser o tipo de alguém.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
O pouco que eu tive me fez maior

Foto: Stephanie Rabemiafara


